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samedi 28 mai 2011

Especialização e Ideologia



Anotações sociológicas
Por
Jacob (J.) Lumier



►Separação do trabalho intelectual

Em Lukacs podemos notar um posicionamento mais coerente com o realismo, e a ideologia é tratada como aspecto da estrutura social e do todo social que lhe é subjacente. No estudo já citado aqui[i] esse autor caracteriza a ideologia burguesa em dois períodos: o clássico e o da decadência, nos quais é questão de “respostas aos problemas que suscita o desenvolvimento do capitalismo”.
No período clássico, há uma “resposta sincera e científica embora incompleta e cheia de contradições”, enquanto na decadência há uma “evasão” diante da realidade, evasão essa disfarçada seja de cientificidade objetiva ou de originalidade romântica, ambas provenientes de uma atitude “a-crítica”.
A ideologia é assim tratada como conhecimento político e posta em perspectiva sociológica, referida aos quadros sociais nos quais entra em correlações funcionais, como matéria de sociologia do conhecimento.
A ideologia burguesa da decadência é cotejada e integrada no conjunto da divisão do trabalho em regime capitalista, isto é, posta em correlações funcionais com o todo social que impulsiona a estrutura de classes.
Duas situações são distinguidas, duas regularidades tendenciais: 1) - o divórcio entre o campo e a cidade e, 2) - a separação entre o trabalho físico e o trabalho intelectual.
Será com referência a essas duas regularidades tendenciais no conjunto da divisão do trabalho em regime capitalista que Lukacs analisará a atitude acrítica do conhecimento político da burguesia em suas representações de cientificidade e de romantismo.
Nota ademais que a separação do trabalho intelectual leva a tipos particulares de especialistas com sua psicologia peculiar, como a psicologia dos juristas, dos técnicos, etc. e que essa separação vai além da estrutura de classes, constituindo um elemento do próprio tipo de fenômeno do todo da sociedade capitalista concorrencial e de sua estrutura global.
Quer dizer, a separação do trabalho intelectual aprofunda-se de tal maneira que penetra na “alma” de cada homem, e provoca fundas deformações.
Não de maneira abstrata, mas, por sua vez, tais deformações aparecerão posteriormente.
Ou melhor, as deformações de separação do trabalho intelectual aparecem efetivamente de diversas maneiras nas distintas manifestações ideológicas, notadamente, no âmbito desses grupos sociais mais humanos como a família, os grupos locais, as oficinas e fábricas.

►Romantismo e Preconceito Político

Entretanto, o que constitui problema para Lukacs é a consciência da liberdade humana em face dessa engrenagem ou determinismo sociológico da sociedade de tipo capitalista concorrencial; é a capacidade de rebeldia ou de não-aceitação desses efeitos deformadores da divisão do trabalho (a privatização da vida, a subjetividade vazia), já que são esses efeitos, ou melhor, a submissão passiva aos mesmos, notadamente a decoração dessas “deformações morais e anímicas”, o que se denuncia no “pensamento decadente”.
Mas não se trata de mera representação. O pensamento ideológico desse tipo decadente se manifesta com expressão de romantismo, lá onde se toma a especialização cada vez mais estreita pelo que deve ser o “destino da nossa época”.
Quer dizer, trata-se de um conhecimento político da burguesia, uma estratégia que "justifica dissimulando e dissimula justificando", no âmbito da qual Lukacs integrará o movimento da filosofia neokantiana e, também em torno de Max Weber, o formalismo, tanto em sociologia como em economia.
Mas não é tudo.  Ressalta que se trata de uma atitude de submissão cuja expressão política é calcada na “evasão apologética” diante da realidade social, de tal forma que a aceitação da especialização estreita leva às declarações preconceituosas de que “o direito ao produto íntegro do trabalho é uma utopia irrealizável" – preconceito anti-social que Lukacs atribui a Weber (ib.p.53).
Tal a abordagem do pensamento ideológico pela sociologia do conhecimento na obra de um pensador marxista representativo do século XX.




[i] Lukacs, Georges: ‘Marx y Weber: reflexiones sobre la decadencia  de la ideología’, in Horowitz, Irwin L.: ‘Historia y Elemientos de la sociología del conocimiento - tomo I’, artigo extraído de Lukacs, G.: ‘Karl Marx und Friedrich Engels als Literaturhistoriker’, Berlim, Aufbau, 1948; tradução Carlos Guerrero, Buenos Aires, Editora da universidade de Buenos Aires (Eudeba), 3ªedição, 1974, pp.49 a 55.

jeudi 26 mai 2011

Sobre a existência dos juízos coletivos

 Sobre a existência dos juízos coletivos
Anotações de sociologia do conhecimento
por Jacob (J.) Lumier

►A história das civilizações

Como se sabe a interpenetração das consciências, suas fusões parciais são tão reais como a existência mista de consciências individuais nas relações interpessoais, que oscilam entre o afastamento e a aproximação [i]. A consciência coletiva inclui as avaliações, opiniões, carências e ideais, apenas como fusões parciais e não como identificações das consciências, e, ao revelar-se tão real quanto a mencionada consciência interindividual faz ver que “toda a consciência aparece comprometida em uma dialética entre o Eu, o outro e um Nós”.
Neste ponto, como refutação à objeção de que os atos de juízo seriam individuais porque ligados tanto à reflexão quanto às palavras, o sociólogo constata que a ação de refletir é debater o pró e o contra, é confrontar argumentos, é participar em um diálogo, em uma discussão, em um debate.
Então, podemos ver que os conjuntos dos argumentos que são confrontados em um diálogo, ao invés de serem arrolados em “um mundo de produtos tornados independentes dos homens”, como nos propôs o filósofo Karl Popper (Sir Karl Raimund Popper, 1902 – 1994) [ii], formam em realidade o domínio coletivo. Basta lembrar em toda a reflexão pessoal a figuração dos distintos Eu que discutem entre si, já que isto não passa de uma projeção do coletivo no individual.
Portanto, deste ponto de vista dos argumentos em cotejo, fica muito difícil negar a existência de juízos coletivos, “que reconhecem a veracidade de experiências e intuições coletivas” e dão fundamento aos conhecimentos coletivos, dos quais, por sua vez, “é testemunha toda a história das civilizações" [iii].

A teoria marxista

Nada obstante, o sociólogo do conhecimento não coloca como disse o problema da validade e do valor dos signos, símbolos, conceitos, idéias, juízos que encontra na realidade social estudada, mas deve apenas “constatar o efeito de sua presença, de sua combinação e de seu funcionamento efetivo” – isto é, colocar o conhecimento em perspectiva sociológica.
Isto porque a sociologia do conhecimento concentra seus esforços, primeiro, nas classes do conhecimento mais profundamente implicadas na realidade social, tais como o conhecimento perceptivo do mundo exterior, o conhecimento de outro e dos temas coletivos (Nós, grupos, sociedades); o senso comum e, segundo, naqueles imbricados na engrenagem das estruturas, como o conhecimento técnico; o conhecimento político; o científico; o filosófico que exigem o debate e a reflexão.
  Para chegar às estruturas e aos determinismos sociológicos, por distinção dos determinismos sociais – estes últimos compreendem os elementos anestruturais como as formas de sociabilidade (Outrem, Nós) –, o sociólogo empreende uma análise dialética prévia da situação dada – sendo essa análise dialética descritiva prévia, como depuração do preconcebido, que porá em relevo a perspectivação sociológica do conhecimento.
 Neste ponto, para fins de contraste, podemos considerar a questão da pressuposição fundamental da teoria marxista, a sua propensão em excluir o alcance determinista dos níveis não-morfológicos da realidade social, a fórmula do seu determinismo único – que por ser tal, por ser “único”, é um determinismo verificado por leis causais, bem conhecidas, tais como as seguintes: (a) - a lei da queda tendencial da taxa de lucro na acumulação do capital, tornando as crises da economia capitalista “necessárias e inevitáveis”, bem como, associada à primeira, (b) - a lei do desenvolvimento desigual e combinado, que perpetua e intensifica a concentração das riquezas eliminando a concorrência, etc.
De acordo com a fórmula projetiva desse “determinismo único”, temos que as forças produtivas e as relações de produção deverão constituir em todo o tipo de sociedade a base “material” que tem o poder de “determinar” a estrutura, a divisão em classes, a consciência, a ideologia e a cultura; pressuposição essa que pode ter aplicação nas sociedades de tipo capitalista concorrencial, mas não a tem na sociedade feudal nem na sociedade patriarcal, nem em outros tipos de sociedades capitalistas [iv] . 


A causalidade singular

Desta maneira, é acertado colocar em dúvida essa concepção de determinismo sociológico “único” e sua identificação às leis causais [v]. Basta ter em conta as constatações seguintes:
(1) normalmente toda a classe de conhecimento e todo o sistema cognitivo formam parte da engrenagem de um quadro social como aspecto, escalonamento ou elemento do fenômeno social total e de sua estrutura [vi];
(2) as dialéticas de polarização, ambigüidade ou complementaridade podem aparecer entre quadro social e saber em situações tendentes ao desacordo entre esses termos;
(3) geralmente, quadro social e saber se encontram em relações de implicação mútua ou de reciprocidade de perspectivas;
(4) estas duas últimas relações são igualmente dialéticas – podem se apresentar como simetrias “frágeis” que se pode quebrar, que se pode converter em termos opostos;
(5) por essa razão, Gurvitch observa que os desencontros ou desacordos entre realidade social e saber são mais bem estudados pelos procedimentos probabilitários ou empírico-dialéticos do item 2 [vii];
(6) Todavia, este notável autor admite somente nos casos onde a situação se torna em patente desacordo entre realidade e saber que se faz possível a intervenção da causalidade.
(7) Nada obstante, Gurvitch contesta acertadamente a aplicação de “leis causais" dizendo-nos que nestes casos do item 6 se trata de causalidade singular e não “leis causais” e que a análise é limitada aos casos particulares;
(8) temos, por exemplo, o caso da existência de um sistema de conhecimentos avançados que pode ser a causa singular, que pode fornecer uma explicação causal do por que uma estrutura social retardada em relação ao seu fenômeno social total consegue resistir e não quebrar – caso das Cidades-Estados da Grécia antiga; caso do antigo regime na França dos séculos XVII e XVIII; caso da Rússia do século XIX e princípios do XX; 
(9) Sob outro aspecto de casos de causalidade singular, temos a situação em que os próprios conhecimentos avançados podem ser causa singular de retardo, e assim favorecer a quebra da estrutura, da mesma maneira em que, reciprocamente, a estrutura pode se converter em “causa de uma orientação abstrata do saber e de sua limitação às elites”, favorecendo igualmente a quebra (Egito antigo);
(10) Gurvitch estuda ainda o caso oposto: uma estrutura social avançada em relação ao sistema do saber, a qual pode ser a causa da “mudança de orientação” desse saber – caso da “antiga” URSS depois da revolução de 1917 ou o caso encontrado nos EUA sob regime de capitalismo organizado, que coloca o conhecimento técnico por cima das demais classes do saber.



NOTAS COMPLEMENTARES

[i] Cf. Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289 PP (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1966), pág.23. Em sociologia a existência mista de consciências individuais que alguns autores designam "intersubjetividade" em alusão à filosofia fenomenológica revela-se inseparável da consciência coletiva (os Nós) e neste marco é estudada.
[ii] Popper, Karl: ‘Conhecimento Objetivo: uma abordagem evolucionária’, tradução Milton Amado, São Paulo/Belo Horizonte, EDUSP/editora Itatiaia, 1975, 394 págs, traduzido da edição inglesa corrigida de 1973 (1ª edição em Inglês: Londres, Oxford University Press, 1972).
[iii] Cf. Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, op.cit. O fato elementar das civilizações se afirma a favor das comunhões como elementos efetivos da realidade social. Todas as religiões, todas as Igrejas, todas as grandes experiências morais, intelectuais, jurídicas ou artísticas são fundadas sobre participações, intuições, juízos coletivos efetuados por consciências interpenetradas e fusionadas em os Nós, de que a Comunhão constitui o grau mais intenso.
[iv] Cf. Gurvitch, Georges: “Études sur les Classes Sociales”, Paris, Gonthier, 1966, 249 págs., Col. Médiations (1ªedição em Francês: Paris, Centre de Documentation Universitaire-CDU, 1954). Pág.19
[v] Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289 pp (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1966). Op. cit. Pág.21
[vi] Isto é, formam parte dos "controles sociais" ou das regulamentações que propriamente empurram para a integração social – como o são as regulamentações pelo direito, conhecimento, moralidade, educação, religião, arte, que os diversos quadros micro e macrossociológicos atualizam em seu seio de modo variado
[vii] Ibid, ibidem


mardi 11 août 2009

O Desvio da Sociologia do Conhecimento na Obra de Karl Mannheim

O DESVIO DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO NA OBRA DE KARL MANNHEIM


POR

JACOB (J.) LUMIER


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Alguns estudiosos dizem-se críticos da sociologia do conhecimento e preterem sua relevância pedagógica como disciplina científica porque equiparam-na indevidamente ao behaviorismo e às abordagens meramente psicológicas do conhecimento.

Via de regra atribui-se como representativa a proposição exagerada de que a “validade das teorias científicas pode ser reduzida aos interesses que desempenharam um papel na sua geração”, como se a sociologia do conhecimento adotasse uma axiomática da causalidade.

Desta forma cultiva-se uma imagem restrita da nossa disciplina, tida equivocadamente como exclusivamente causal, imagem esta que, em toda a evidência, tem a ver com uma simplificação imprópria da sociologia do conhecimento identificada ao neo-hegelianismo de Karl Mannheim.

Autor muito influente nos Estados Unidos[1] com sua obra Ideologia e Utopia [2] e sua compreensão de que todo o conhecimento é ligado a questões práticas, Mannheim comprometeu seu pragmatismo.

Além disso prejudicou a autonomia e o prestígio científico da sociologia do conhecimento de que ele foi o mais notado incentivador na primeira metade do Século Vinte ao elaborar um enfoque inteiramente baseado na concepção hegeliana conservadorista, tomando o saber como instrumento de adaptação do mundo dos valores ideais às situações existentes ao longo da história.

Trata-se de uma posição filosófica preconcebida submetendo o princípio de sua sociologia que, ao contrário do que se poderia conjecturar, afirmava a determinação social do pensamento em razão do hegelianismo e não em resultado das pesquisas concretas.

Mas não é tudo. Combinada a essa concepção do saber, tido por meio de adaptação dos ideais como conjunto das obras de civilização (incluindo a arte, religião, direito, moralidade, educação, e o próprio conhecimento), Mannheim faz por segregar sua célebre representação de um sujeito com plena ciência desta faceta instrumental do conhecimento.

Vale dizer, projetando uma ciência desse saber adaptando às situações existentes na história, Mannheim se representa um “estrato desamarrado, relativamente sem classe” por ele chamada “intelligentsia socialmente desvinculada” capaz de salvaguardar a perspectiva do todo e o interesse pelo todo – em realidade um todo previamente alcançado com a tomada de posição filosófica pró hegelianismo.

Ademais, cabe notar que esse posicionamento recusando as amarras sociais como desfavoráveis a um saber do todo faz lembrar a pesquisa social sobre o sentimento de imperfeição do mundo nas classes subalternas, comentada por Max Weber [3].

Por uma abordagem ou por outra, pelo viés da concepção conservadora do saber ou pelo desvio da recusa de amarras sociais, a verdade é que não se pode aplicar a sociologia de Mannheim sem levar em conta o problema crítico cultural da transposição do hegelianismo ou do conservadorismo hegeliano em ideologia revolucionária no século 20, do que o melhor exame foi proposto por Ernst Cassirer em “O Mito do Estado” [4] .

Em suma, à luz da nova sociologia do conhecimento proposta por C. Wright Mills e desenvolvida por Georges Gurvitch, sobressai que o neo-hegelianismo de Mannheim levou ao fracasso sua orientação, absolutamente inaproveitável em uma sociologia comprometida com a explicação das questões públicas.

(continua)


[1] Gurvitch, Georges (1894-1965): “Problemas de Sociologia do Conhecimento”, In Gurvitch (Ed.) et Al. ”Tratado de Sociologia - Vol.2”, Trad: Ma. José Marinho, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, Págs.145 a 189 (1ªedição Em Francês: PUF, Paris, 1960). Cf.pág. 161.

[2] Mannheim, Karl: « Ideologia e Utopia: uma introdução à sociologia do conhecimento », tradução Sérgio Santeiro, revisão César Guimarães, Rio de Janeiro, Zahar editor, 2ªedição, 1972, 330 pp. (1ªedição em Alemão, Bonn, F.Cohen, 1929; 2ªedição remodelada em Inglês, 1936).

[3] Wrigth Mills, C. e Gerth, Hans - Organizadores : « Max Weber : Ensaios de Sociologia », tradução Waltensir Dutra, revisão Fernando Henrique Cardoso, 2ªedição, Rio de Janeiro, Zahar, 1971, 530 pp.(1ªedição em Inglês : Oxford University Press, 1946). Cf.págs.318 sq e 409 sq.

[4] Cassirer, Ernst: “O Mito do Estado”, trad. Álvaro Cabral, Rio de Janeiro, Zahar editor, 1976, 316 pp. (1ªedição em Inglês, Londres, 1946).

dimanche 24 mai 2009

Vontade de Valor, Vontade de Verdade, Idéias de Valor em Sociologia.



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Vontade de Valor, Vontade de Verdade, Idéias de Valor: o estudo sociológico dos quadros intelectuais da sociologia de Max Weber by Jacob (J.) Lumier is licensed under a Creative Commons Reconocimiento-No comercial-Sin obras derivadas 3.0 Estados Unidos License.
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O estudo sociológico dos quadros intelectuais da sociologia de Max Weber [1]

Epígrafe

A separação radical do fato e dos valores em Max Weber revela o paradoxo em se ignorar nos seres do passado a vontade de valor ou de verdade, o que, em conseqüência, limita fortemente o alcance da sociologia interpretativa para a compreensão da conduta individual unicamente na referência das idéias de valor. O estudo sociológico dos quadros intelectuais de Max Weber deve explicar como aconteceu que esse pensador não tenha repelido tal paradoxo.

***

O estudo dos quadros sociológicos da sociologia da compreensão interpretativa se encontra assinalada nos estudiosos da obra e pensamento de Max Weber que buscam selecionar as influências aceites por este pensador oriundas do seu ambiente social e intelectual mais próximo, assim como buscam descobrir a maneira pela qual tais influências se traduzem em conceitos e modelos de análise.

A sugestão de que o problema da sociologia de Max Weber se equaciona em termos sociológicos em torno ao culturalismo espiritualista de Heinrich Rickert, tomado como o conjunto das orientações intelectuais e metodológicas que servem de referência para a sociologia da compreensão interpretativa, parece atender em maneira bastante satisfatória a tal linha de pesquisa dos estudiosos [2]. Isto porque aporta um esclarecimento sobre as fontes na sociologia do século XIX para a procedência do formalismo, do culturalismo e do psicologismo que, freqüentemente, os estudiosos observam combinando-se em maneiras variadas na sociologia de Max Weber.

Essas orientações para o formalismo, o culturalismo e o psicologismo nada mais significam do que ampliações da crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social [3].

►A dificuldade maior de Max Weber surge da tensão entre, por um lado, a convicção de que o método das ciências sociais é necessariamente individualizante e, por outro lado, a própria possibilidade da sociologia, a qual implica em generalização.

Tal o quadro do seu pensamento, que Gurvitch põe em relevo como se efetivando na base da construção dos tipos sociológicos ideais.

Por outras palavras: a crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social funciona então para equilibrar essa tensão no pensamento de Max Weber, sem que, todavia, isso o proteja contra os reveses em sua sociologia, como a dispersão.

A crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social funciona para equilibrar a tensão no pensamento de Max Weber sem que,todavia, isso o proteja contra os reveses em sua sociologia, como a dispersão.

►Como se sabe, o contexto mais amplo em que se produziu a sociologia da compreensão interpretativa é marcado não só pela atmosfera humanista dos salões intelectuais, mas pela influência dos neokantianos, que predominaram nas universidades alemães à época do liberalismo, entre 1870 e 1914, acentuando a erudição no ensino e a importância dos conceitos reguladores e das regras como princípios na teoria do conhecimento.

Além disso, nota-se também o choque de duas estruturas de trabalho intelectual contemplando, por um lado, a interpretação conservadora de idéias pelos acadêmicos e, por outro lado, a produção intelectual de socialistas não-acadêmicos (Kautsky, Bernstein, Mehering), dualidade esta que ainda segundo C. Wright Mills criava uma tensão intelectual singular e desafiadora [4].

Observa-se a confusão em Max Weber da filosofia da história e da sociologia. A racionalização não só é um princípio, mas é tido como o elemento mais geral na filosofia da história, sendo medida pelo desencantamento do mundo, em relação a que Wright Mills situa a contribuição de Max Weber à sociologia o conhecimento ao mesmo tempo em que registra tratar-se da concepção errática de um progresso unilinear na direção da perfeição moral.

Mas não é tudo. Em relação ao psicologismo, nota-se que a noção de cultura européia em Max Weber afirma igualmente o progresso ideal, porém admitindo ambigüidades e as racionalizações progressivas são objetos de análises psicológicas quando ali se trata de explicar os sistemas religiosos.

Sublinha-se igualmente o nominalismo cuidadoso do método de Max Weber e a influência da imagem (romântica) do indivíduo monumentalizado (Carlyle) para a concepção weberiana do líder carismático.

Nesse individualismo nominalista, se a unidade final das análises weberianas é posta pelas motivações compreensíveis do indivíduo isolado não será de espantar que essa análise estanque ou fique suspensa diante do conceito de personalidade.

►Com efeito, a personalidade ali não passa de um centro de criatividade profundamente irracional, um processus não analisado cuja concretização em uma noção (a inspiração) derivada do romantismo Max Weber se empenha em rejeitar.

Mas não é tudo. Esse individualismo e nominalismo podem ser notados diretamente na seguinte passagem selecionada de “Ensaios sobre a Teoria da Ciência”, de Max Weber (Ver a edição francesa: Paris, Plon): “A sociologia interpretativa considera o indivíduo (Einzelindividuum) e seu ato como a unidade básica, como seu átomo (...). O indivíduo é também o limite superior e o único portador de conduta significativa (...). Conceitos como Estado, associação, feudalismo e outros semelhantes designam certas categorias da interação humana. Daí ser tarefa da sociologia reduzir esses conceitos à ação compreensível, isto é, sem exceção, aos atos dos indivíduos participantes” [5].

Para Wright Mills, o problema da compreensão foi formulado por Wilhelm Dilthey e Max Weber o incorporou em suas análises por ele mesmo denominadas como sociologia interpretativa ou compreensiva. O problema dos tipos sociológicos atenderia, pois, a uma abordagem nominalista e estabelece uma escala de racionalidade e irracionalidade em que a psicologia da motivação cede lugar a um recurso tipológico.

►Sustenta-se a ocorrência de uma dualidade entre as reflexões metodológicas e as análises de Max Weber. Por um lado, houvera o propósito metodológico de limitar a compreensão e interpretação do significado às intenções subjetivas do agente social, mas, em sua obra real, por outro lado, Max Weber teria admitido que os resultados das interações não são em modo algum sempre idênticos ao que o agente pretendia fazer.

Apesar de todas essas observações direcionadas para uma sociologia do conhecimento sociológico, Wright Mills por sua vez não percebe, porém, a importância da utilização de fatores isolados na sociologia interpretativa weberiana.

Ou seja, a utilização de fatores isolados na sociologia de Max Weber é sim constatada por Wright Mills. Todavia, por falta de uma crítica da sociologia do século XIX, esse autor ali não percebe o influxo da crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social, nem o alcance desta crença especifica aos sociólogos culturalistas para a análise sociológica dos quadros intelectuais da sociologia de Max Weber.

►Em maneira semelhante a Wright Mills, outros autores estudiosos também se restringem a assinalar uma correlação entre um contexto de choque de duas estruturas de trabalho intelectual por um lado, e por outro lado a dualidade entre metodologia e análise na obra de Max Weber. Lamentavelmente, não desenvolvem orientação proveitosa em sociologia do conhecimento sociológico aplicável a este pensador.

Assim Raymond Aron tece suas observações críticas no âmbito desse duplo dualismo de influências intelectuais e de metodologia/análise e, embora admita a influência de Heinrich Rickert, também se apraz em contemplar o irracional em Max Weber.

Mais precisamente: tendo descoberto uma orientação de caráter existencial ou até existencialista na filosofia implícita de Max Weber, Raymond Aron limitou sua contribuição a uma forte argumentação contra a redução do pensamento weberiano ao nihilismo – tese sustentada pelo filósofo da cultura política Leo Strauss.

Nesse marco de crítica filosófica, e em certo modo inesperado para um sociólogo, nos sugere Raymond Aron que o problema da compreensão tal como desenvolvido em Max Weber deve ser referido preferencialmente não a Dilthey, mas ao pensamento metapsicológico do psiquiatra e filósofo kierkegaardiano Karl Jaspers.

Quer dizer, deve-se dar preferência ao psicologismo ou à limitação de Max Weber ao psicologismo, fazendo prevalecer o âmbito não romântico do problema daquele centro de criatividade profundamente irracional, que como vimos Wright Mills acentuou a respeito da orientação de Max Weber para o conceito de personalidade.

Desse modo, em um dos seus primeiros ensaios marcantes intitulado “Introduction à la Philosophie de l’Histoire” (Paris, Gallimard) Raymond Aron sublinha a separação radical do fato e dos valores em Max Weber, desdobrando alguns comentários críticos a respeito do paradoxo em se ignorar nos seres do passado a vontade de valor ou de verdade, paradoxo este limitando em conseqüência o alcance da orientação de Max Weber para a compreensão da conduta individual unicamente na referência das idéias de valor [6] .

Sustenta esse estudioso que se essa concepção excluindo a vontade de valor ou de verdade fosse admitida, não se teria o critério para diferenciar entre uma obra de filosofia como a “Crítica da Razão Pura”, de E. Kant, e o que Raymond Aron chama as imaginações delirantes de um paranóico, já que ambas seriam colocadas no mesmo plano.

Seja como for, esse estudioso não chega a observar em tal exorbitância do método nominalista o biais pelo qual se infiltra no pensamento de Max Weber a crença específica aos sociólogos culturalistas que acometia a sociologia do século XIX e que deve ser posta de lado pelos sociólogos contemporâneos.

Como vimos, por essa crença específica no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social, se reduz a realidade social aos fatores predominantes.

Assim, em seu monumental ensaio posterior sobre “Les Étapes de La Pensée Sociologique”[7] Raymond Aron se limitará a confirmar que a orientação de Max Weber deve ser referida a uma filosofia existencial, nada acrescentando de interesse para o estudo propriamente sociológico dos quadros intelectuais-sociológicos da sociologia da compreensão interpretativa desenvolvida por Max Weber.

Desta sorte, embora acentue a vinculação da sociologia interpretativa aos limites do século XIX, prevalece a conclusão de Gurvitch, de que a crença no caráter extra-social do fator predominante como capaz de explicar a generalidade do social funciona para equilibrar a tensão no pensamento de Max Weber, sem que, todavia, isso o proteja contra os reveses em sua sociologia, tais que a dispersão.

***

Creative Commons


[1] Esta postagem é o aperfeiçoamento de um trecho do meu e-book "Cultura e consciência coletiva: Leituras Saint-Simonianas de Teoria Sociológica", divulgado na Web da OEI em 31 de Janeiro de 2008 http://www.oei.es/noticias/spip.php?article1872

[2] Cf Gurvitch, Georges: "“A Vocação Actual da Sociologia", 2 volumes, Lisboa, Cosmos, 1979 e 1986.

[3] Ib, Ibidem.

[4] Hans Gerth e Wrigth Mills (organizadores): "Max Weber - Ensaios de Sociologia", 2ªedição, Rio de Janeiro, Zahar, 1971, 530pp.(1ªedição em Inglês : Oxford University Press, 1946).

[5] Ib, Ibidem.

[6] Na medida em que as idéias de valor referem igualmente a sociologia da religião de Max Weber, caberia notar o contraste com as análises dialéticas da ambiência histórica tradicional e religiosa desenvolvidas por Ernst Bloch que, enlaçando a vontade de valor e de verdade ao elemento essencial originário em si mesmo, reintegra nos seres do passado a impaciente, rebelde e severa vontade de paraíso Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución ("Thomas Münzer als Theologe der Revolution", München 1921) Editorial Ciencia Nueva, Madrid, 1968, págs.67, 68.

[7] ARON, Raymond: “Les Étapes de la Pensée Sociologique : Montesquieu, Comte, Marx, Tocqueville, Durkheim, Pareto, Weber”, Paris, Gallimard, 1967, 659pp.

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